Amigos, o que vi passa a ser comentado em novo endereço. Anotem, por gentileza
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A sinopse não precisa ser maior que isso: zumbis nazistas na neve. Curioso como uma ideia aparente tão boa e óbvia para qualquer fã de cinema fantástico tenha demorado tanto pra ser colocada em prática (desconheço outro com premissa igual; alguém?). Teve de ser mesmo esse norueguês aparentemente maluco chamado Tommy Wirkola, que já cometeu uma paródia de “Kill Bill”, pelo jeito não muito boa. O resultado aqui até que é interessante. O acabamento é duvidoso e a fotografia é medíocre, mas atuações e a festa gore seguram o interesse por uma trama nonsense sobre um grupo de amigos de férias nas montanhas que topa com nazistas gananciosos. O tom aqui é mais Sam Raimi que George Romero: os zumbis correm, o humor é histérico e abundante e os sobreviventes mais longevos usam, sim, uma serra elétrica. Pena que a boa intenção seja soterrada por uma devoção exagerada a “Evil Dead” e pouca vontade de invenção. Homenagem demais parece plágio e preguiça.
Faz sentido que este seja o primeiro e único filme de Laughton: é uma bagunça corajosa e inconsequente da melhor qualidade. Incrível como o homem encaixa tantos registros diferentes numa só trama – thriller, melodrama, fábula – num arranjo não exatamente fluido, mas muito bem feito, até mesmo em sua artificialidade proposital. O personagem de Robert Mitchum, um falso pastor serial killer, é tão odioso que passa a ser fascinante. Sua silhueta cavalgando na contraluz naquela cena do estábulo (belo truque de falsa perspectiva) é daquelas que ficam impressas na retina.
Isso aqui é obra prima. O que esse sul-coreano Kim Ji-woon filma é coisa de outro mundo. Trata-se de uma trama de vingança: o capanga que é punido de forma cruel pelo chefe mafioso por um “erro” bobo, sobrevive e devolve a violência em dose ainda maior. A diferença é o uso da cor, a câmera fluida, a delicadeza no retrato do heroi. E, mais ainda, as cenas de ação absolutamente geniais. A melhor delas lembra a cena de luta no corredor em ‘Old Boy’, só que mais frenética e sem o plano-sequência, além de capangas tendo o rosto raspado na parede ou os corpos incendiados. Recomendo muito.
Drama de prisão tão ausente de ideias que chega a desestimular a conclusão deste parágrafo. Tem atuações decentes do Brian Cox e etc, mas por outro lado tem o Seu Jorge num papel apenas um pouco mais falante do que em ‘A Vida Aquática com Steve Zissou’. Outro daqueles que abre mão da linearidade apenas como truque – e, pior, no fim se percebe que o truque era, afinal, a própria razão de ser do filme, que não tem mais nada de interesse. A não ser que ver o Damian Lewis interpretando a bichinha cruel da cadeia seja o fetiche de alguém.
Dá um certo alívio ver que o próprio Charlie Kaufman tem noção do quão melodramáticos e emocionalmente distorcidos são seus roteiros. O início, num tom de comédia incômoda, com personagens sucumbindo a paranoias médicas e psiquiátricas, fuçando a própria merda na privada atrás de indícios de doença, serve como âncora semi-realista para a os dois terços seguintes, em que Kaufman vai mais longe que nunca nos delírios metalinguísticos e existenciais. Há boa dose de invenção aqui, mas a serviço de uma visão de mundo tão histérica e desesperada que a sensação geral é de afogamento. Kaufman, escreva uma comédia para o Rob Schneider (meu coringa) e relaxe um pouco, que diabos.
Das raras comédias que não me fizeram rir, mesmo que displicentemente ou pelos motivos errados. E isso mesmo com Simon Pegg, exagerado e estridente aqui. Trata-se de uma espécie de “Diabo Veste Prada” no mundo das celebridades do cinema, com a diferença de que o protagonista é ainda mais irritante e desprezível que os coadjuvantes. Filme indeciso entre a crítica e o abraço ao universo em se situa, acaba sendo, basicamente, um nada. A guinada romântica no terceiro ato soa forçada como o sotaque nordestino das novelas da Globo.
Estava curioso para ver como Tony Jaa, astro tailandês das artes marciais, se sairia dirigindo a si mesmo. O resultado é previsível: o estreante Jaa é generoso consigo, apesar do limitado vocabulário cinematográfico de que dispõe. As cenas de ação são quase todas filmadas em planos laterais baixos e abertos, sem grandes esforços de exploração do tempo pela montagem. São, claro, lutas divertidas de se ver, mas o tom aqui é solene demais. Jaa havia estrelado o anterior “Ong Bak“, que não tem absolutamente nenhuma relação com este, apesar do numeral indicando uma sequência: no original, o cenário era urbano e contemporâneo, sendo que aqui a ação é de época, em vilarejos e florestas. O tom buscado é da ordem do épico, mas a história não colabora – jovem tem sua família assassinada e é recrutado e treinado por um bando de piratas; busca vingança etc; tudo contado de forma bobamente retorcida, talvez com a intenção de mostrar-se sofisticado. Preferia muito mais o filme anterior, mais vivo e bem-humorado. Pelo visto, devem querer transformar isso em cinessérie. Passo.
Ao mesmo tempo em que as limitações sobre vocabulário e palavrões eram afrouxadas em Hollywood, Robert Towne assina esse bom roteiro boca-suja sobre uma dupla de marinheiros (Jack Nicholson, em chamas, e Otis Young) encarregada de levar um jovem para a prisão naval por oito anos. No caminho, decidem oferecer ao moleque algumas aventuras pra que ele viva um pouco antes de ser encarcerado etc. A estrutura quase episódica é mais uma forma de estudar os ótimos personagens e vê-los à solta, arruaçando e desafiando convenções, leis e autoridades, revoltados com a aparente injustiça da prisão do moleque – condenado por roubar uma grana da caixinha de caridade organizada pela esposa de um graúdo na Marinha. Tratando-se de um filme essencialmente setentista, é pessimista: a revolta dos personagens não abala estrutura de poder nenhuma e tudo acaba como começou. A hierarquia se mantém.
Primeiro filme de Schrader na direção, impusionado por seu roteiro em “Taxi Driver”. E que puta estreia. Schrader e o irmão, Leonard, formulam uma agresiva trama sobre a luta de classes em que os sindicatos, quando falhos ou corruptos, tornam-se piores inimigos dos trabalhadores do que as próprias empresas exploradoras. Curioso que, mesmo lendo a sinopse e conhecendo a parte da obra de Schrader, esperei por, no mínimo, uma comédia dramática, induzido pela presença de Richard Pryor e sua cara sorridente no pôster. Nada mais errado. Ri-se pouco aqui. Pryor, Harvey Keitel e Yaphet Kotto formam o trio de operários que decide roubar o cofre do sindicato ao perceber que seus dirigentes usam da posição para acomodar-se, sem trazer benefícios para os trabalhadores. A descrição que faço faz parecer este um filme ingênuo, o que não me parece ser – Schrader cria um drama convicente que justifica a ideia absurda do trio, mas ao mesmo tempo sempre cria armadilhas e contradições para as ações dos protagonistas, que em certo momento da narrativa se colocam um contra o outro numa conclusão brilhante.
Filme geladíssimo de To sobre o processo de eleição do chefe de uma máfia japonesa. Ninguém se salva na história, que oscila entre loucos, calculistas e capangas meio acéfalos. To tem o mérito de não glamourizar nada e filmar com economia, mas é decididamente um filme desértico, sem pontos de apoio. Há quem goste; achei apenas interessante do ponto de vista conceitual, mas sacal de se acompanhar. Deve ser, também, razoavelmente realista. No filme, alguns personagens graúdos exaltam o caráter democrático de uma eleição abertamente temperada por subornos e favorecimentos de todos os lados, ao mesmo tempo que tentam preservar sua tradição, representada na transmissão de determinado objeto simbólico, caçado com voracidade. Como na política legítima, o jogo de cena sobressai.
Clint, esse velhinho maravilhoso, é talvez o único diretor americano em atividade com condição de fazer filmes com grande senso de moral sem que soem moralistas. Aqui, a relação do protagonista Walt Kowalski, um veterano da Guerra da Coréia, com o “outro” – figura que assume ares de vilão de filmes de horror e catalisador de críticas ao “nós” em filmes panfletários – é reservada: é preciso conhecê-lo, já que não são todos iguais. Na verdade, a própria relação com o “nós” é passível de reavaliação, como a de Walt com a própria família. Assim como em “Menina de Ouro”, os laços de sangue significam pouco, e o acerto com deus significa menos ainda se não há o acerto consigo próprio.
É daqueles clássicos instantâneos que desperta a velha pergunta retórica “porque não fazem mais filmes como esse?”. A resposta é, em parte, simples: porque é preciso talento. E, principalmente, clareza, tanto sobre a natureza das próprias certezas quanto sobre a extensão das próprias dúvidas.
Acho incrível como essa comédia é, para padrão de qualquer época, subversiva. Altman faz todo o possível para desmontar o gênero: filme sem trama, mas sem ser estruturado em torno de esquetes; câmera às vezes sem foco, objetos obstruindo o enquadramento; diálogos sobrepostos, caóticos e sujos; personagens entre insanos e cruéis, fazendo piadas de mau gosto enquanto operam soldados abertos numa mesa de cirurgia. E tudo isso sendo, enfim, hilário. E também raivosamente antimilitar e anti-religioso.
Que filme excêntrico. Soavi, que camelou como diretor assistente de Lamberto Bava, Joe D’amato e Dario Argento, faz aqui um filme único no tom ao mesmo tempo delirante e displicente. Rupert Everett, surpreendentemente bom, é o coveiro num cemitério em que os mortos, depois de sete dias, levantam-se das covas. Seu trabalho, encarado com naturalidade, é enfiar balas na cabeça dos zumbis e reencaminhá-los para a tumba. Com relativamente pouco gore, Soavi faz uma mistureba curiosa de horror, romance, comédia e drama, embalados numa trama que talvez se preste a interpretações desvairadas sobre seu real significado – seria a manifestação da psique conturbada de um dos personagens secundários? Não sei. A graça aqui é ver como Soavi amarra tudo num trabalho de câmera e edição muito criativo e divertido de se ver. Dá gosto.
Estranho e virulento filme-colagem de De Palma, que foge aqui de seu formalismo brilhante em favor de um trabalho raivoso e irreconciliável de questionamento da mídia e da imagem gravada – e, claro, da própria guerra no Iraque. Filmado de forma a reproduzir as imagens toscas de vídeos de YouTube, câmeras digitais amadoras e reportagens de televisão, De Palma trata do episódio em que um grupo de soldados norte-americanos estupra uma garota iraquiana e a mata, assim como sua família. A mensagem anti-guerra é tão enfática que quase encobre a discussão mais sutil em torno da artificialidade nessas imagens – “essa câmera não mente”, diz o soldado “estudante de cinema” que filma tudo à sua volta; “isso é besteira”, responde o outro. É curioso como no filme a lente atua como catalisadora, ou pelo menos influenciadora, dos eventos registrados – é o relato filmado que parece conduzir o entrevistado a uma conclusão qualquer, a decapitação encenada para a câmera, o desabafo agravado pelo registro online. Ela, mais do que mentir, levaria a própria realidade a se distorcer para caber em seu molde.
Daqueles filmes aparentemente pensados e produzidos em torno do título – e que belo título. Deve ser a obra-prima do Peckinpah. Warren Oates interpreta Benny, o pianista americano que parte em busca do tal Alfredo Garcia, cuja cabeça foi posta a prêmio por um coronel mexicano por ter engravidado sua filha. Garcia, no entanto, já está morto – acidente de carro. Mas a recompensa – ódio puro, irracional e, diríamos, pouco pragmático – exige apenas a cabeça do cara, não importa o contexto em que ela tenha sido separada do corpo. Mais que uma história em que a violência se perpetua num círculo vicioso de início arbitrário, Peckinpah filma com delicadeza a discussão de relação de Benny e sua namorada prostituta, faz suas tradicionais sequências de ação em câmera lenta (gloriosas, como sempre) e ainda esquadrinha o molde tarantinesco nas surreais cenas em que Benny conversa com a cabeça em estado de putrefação de Alfredo Garcia. Sensacional.
O interesse aqui é o GÊNIO Norm Macdonald, ex-integrante do “Saturday Night Live” e comediante especializado num tipo de humor difícil de fazer e de se fazer entender, que é o da piada de contrapé, do comentário surreal, de um certo tipo de aleatoriedade com frequente tendência ao ofensivo (assistam a este exemplo, por favor). Neste filme lotado de pontas de gente boa e conhecida (Chris Farley, Adam Sandler, Chevy Chase, David Koechner, Don Rickles etc), Norm, também roteirista, cria uma história de vingança que é o cúmulo do banal e a transforma num exercício de criação de situações e diálogos estranhos e de punchline às vezes pouco óbvio. É uma das razões que fez do filme um fracasso absoluto de crítica e público – ao mesmo tempo que aparenta ser uma comédia ordinária, sua entonação foge completamente do padrão.
Posso estar muito errado sobre isto (claro), mas vejo nessa cinebiografia uma falta de carinho em relação ao seu assunto, o político e ativista gay Harvey Milk. Trata-se de um personagem muito amado por outros personagens – principalmente o do ótimo James Franco, o ator mais caloroso em atividade – mas usado como uma ferramenta ideológica pelo roteiro e pela direção. O filme descarta quase completamente o passado de Milk antes de sua decisão de se tornar político. É, para todos os efeitos, um instrumento de persuasão. Sean Penn é maravilhoso no papel, mas é uma interpretação que me parece ter suas engrenagens tão expostas quanto a do próprio filme: Penn parece buscar um Harvey Milk irresistivelmente carismático como forma de contrabando de um discurso monolítico de igualdade sexual – perfeitamente louvável e até mesmo bonito, mas que torna o filme um discurso reto e obtuso.
Escrevo ainda em processo de digestão, mas meu juízo desse primeiro contato com o filme está indefinido basicamente na intensidade do desgosto, se profundo e irremediável ou apenas profundo.
Como convém entre quem escreve sobre “Watchmen”, registro que li a HQ e dela sou fã entusiasmado, além de integrante do clube “Watchmen é infilmável, DESISTAM”. A suspeita um tanto obtusa está, imagino, confirmada em parte. Por mais que a ânsia replicadora de Zack Snyder tenha rendido um filme bem próximo da superfície dos quadrinhos, o que de melhor Alan Moore e Dave Gibbons criaram parece ter ficado de fora.
Tento, aqui, julgar o filme por seus méritos na tela, mas é difícil separá-lo totalmente do material original – diabos, o próprio diretor e o estúdio divulgaram à exaustão o cuidado com a fidelidade à obra original. É justo considerá-la no horizonte, ao menos.
O tom do filme, por exemplo. Enquanto a HQ lida o tempo todo com oposições, ambiguidades, paradoxos e contradições a partir de diversos pontos de vista, o filme assume Rorschach como condutor, figura tratada como heróica e trágica, mesmo que doentia. Há um vilão evidente, há cenas de ação eufóricas, há um final excessivamente arrastado e dramático – tudo o que a HQ e sua lógica interna evitavam. Elementos, no entanto, que podem até fazer sentido numa adaptação menos ambiciosa.
Mas Snyder é ambicioso – o cuidado com os enquadramentos e com a direção de arte impressiona -, apesar de limitado nos seus recursos dramáticos. Trata-se de um filme longo que parece apressado. Identifico o mesmo defeito (em menor escala) que vi em “Sin City”, outra adaptação dos quadrinhos: o ritmo de uma HQ, ditado pela posição, quantidade e tamanho dos quadros, parece ser achatado na transição para a tela numa sequência virtualmente incansável de cenas sendo empilhadas. Como o filme é todo articulado numa só intensidade, seu fim se esvazia e a sensação geral é de dormência. Problema de adaptação fiel demais (no que não deveria) e inteligente de menos.
Há alguns momentos bons, como os flashbacks do Dr. Manhattan e sua origem, agridoces e estranhos, uma pequena peça de sci-fi bem polida em meio a um acidente de grandes proporções. A sequência dos créditos iniciais também funciona bem, com sua criação astuta de um todo um imaginário em torno da figura dos heróis ao som de Bob Dylan – provavelmente a única cena em que o uso da trilha funciona de verdade, com a já infame cena de sexo no lado oposto da escala.
O filme ao menos parece ter o grande mérito de ser polarizador, de pedir que seja discutido e pensado. Alan Moore tem boa parte de responsabilidade, mas Snyder também merece algum crédito. Sem ironia: foi até que uma boa tentativa.
Depois do fim do filme, o impulso inevitável é de correr ao YouTube e caçar cenas da entrevista real de David Frost com Richard Nixon. Tenho dúvida se esse movimento diz algo contra ou a favor do filme. O cerne aqui é, claro, o embate psicológico (mais que intelectual) entre os dois personagens, que Ron Howard consegue reproduzir com habilidade. Mas a origem televisiva do assunto parece contaminar a linguagem, com aqueles entediantes depoimentos “documentais” dos personagens, um artifício que me parece preguiçoso. A melhor cena é, claro, aquela da ligação noturna entre Nixon e Frost, evento misterioso que fascina justamente por sua ambiguidade: existiu ou não? Sem a cena, o filme seria nada mais do que uma moldura banal para a grande interpretação de Frank Langella.